Documentos internos obtidos pelo Confidencial expõem uma rede de ligações entre executivos de topo do sector energético e membros do Governo que beneficiaram pessoalmente de contratos milionários no valor total de 6,8 mil milhões de kwanzas. As ligações, meticulosamente documentadas em correspondência electrónica e registos bancários, mostram um padrão de favorecimento que se estende por quatro anos consecutivos.

O escândalo envolve contratos de fornecimento de equipamentos, serviços de manutenção e consultoria adjudicados a empresas com ligações comprovadas a figuras políticas. Em vários casos, as empresas beneficiadas foram criadas meses antes das adjudicações, sem qualquer historial operacional que justificasse a sua selecção.

As ligações políticas

O Confidencial identificou quatro figuras políticas com ligações directas às empresas beneficiadas. Numa das situações mais flagrantes, um membro de uma comissão parlamentar de fiscalização do sector energético é cunhado do director executivo de uma empresa que recebeu contratos no valor de 840 milhões de kwanzas nos últimos três anos.

Num segundo caso, uma empresa de consultoria energética pertencente a um ex-ministro — formalmente registada em nome da sua esposa — recebeu contratos de consultoria de uma empresa estatal por um valor total de 1,2 mil milhões de kwanzas. Os contratos foram renovados automaticamente sem avaliação de desempenho.

"Este não é um problema de ocasionais conflitos de interesse. É uma captura sistemática do sector energético por uma rede de interesses políticos e empresariais que opera há anos sem qualquer escrutínio."

— Especialista em governação e anticorrupção, identidade protegida a pedido da fonte

O impacto nos consumidores

O sobrepreço pago nos contratos inflacionados tem um custo directo para os consumidores de energia. Segundo economistas ouvidos pelo Confidencial, estima-se que a ineficiência do sector, amplamente atribuível à corrupção nos contratos, resulte num custo adicional de aproximadamente 15% nas tarifas pagas pelos consumidores domésticos e industriais.

Para as empresas, este custo adicional representa uma perda de competitividade significativa num momento em que o sector industrial enfrenta já outros desafios estruturais. Algumas empresas industriais contactadas pelo Confidencial afirmam que os cortes de energia irregulares e as tarifas elevadas são factores determinantes nas suas decisões de investimento.

A resposta das empresas envolvidas

O Confidencial enviou pedidos de comentário a todas as empresas identificadas na investigação. Apenas duas responderam, negando qualquer irregularidade. As restantes não responderam ou enviaram respostas genéricas que não abordavam as questões específicas colocadas. A empresa estatal em causa emitiu um comunicado afirmando que "todos os processos de adjudicação cumpriram integralmente os procedimentos legais estabelecidos".

O Ministério Público foi contactado pelo Confidencial relativamente a esta investigação. A resposta recebida indica que "as denúncias serão analisadas no âmbito das competências legais do Ministério Público". A investigação do Confidencial continua e novas revelações serão publicadas nas próximas edições.