Relatórios internos do Ministério do Ambiente, obtidos pelo Confidencial através de fontes dentro da administração, revelam que a taxa de desmatamento aumentou 40% no último ano — mas os números foram suprimidos antes da publicação oficial, substituídos por dados fabricados que pintavam um quadro radicalmente diferente da realidade.
Os documentos, datados entre Janeiro e Outubro de 2023, mostram que foram destruídos mais de 280 mil hectares de floresta nativa, quase o dobro do que os relatórios públicos indicaram. A decisão de suprimir os dados foi tomada num encontro entre altos funcionários do Ministério e representantes de três grandes empresas madeireiras com contratos activos junto do Estado.
A falsificação dos dados
Segundo as fontes do Confidencial, os dados reais foram substituídos por uma metodologia de cálculo diferente, que excluía áreas classificadas como "exploração controlada". Esta reclassificação, feita sem qualquer base científica ou legal, permitiu reduzir artificialmente os números divulgados ao público em mais de 60%.
Um dos documentos obtidos é um memorando interno, assinado por um director-geral do Ministério, que instrui os técnicos responsáveis a "ajustar os dados de cobertura florestal de acordo com os parâmetros aprovados pela direcção". Os técnicos que se recusaram a assinar os relatórios finais foram transferidos para departamentos secundários.
"Foram-nos dadas duas opções: assinar os relatórios alterados ou perder o posto. Alguns de nós assinaram com relutância. Outros recusaram e pagaram o preço profissionalmente."
— Fonte interna do Ministério do Ambiente, identidade protegida
As empresas beneficiadas
A investigação do Confidencial identificou três empresas madeireiras que expandiram significativamente as suas concessões de exploração florestal nos meses que se seguiram à alteração dos dados. Duas delas têm accionistas que são familiares directos de membros do Governo.
Os contratos, adjudicados sem concurso público ao abrigo de uma cláusula de "interesse nacional estratégico", valem no total cerca de 1,2 mil milhões de kwanzas. As empresas tinham acesso às versões não alteradas dos relatórios técnicos antes de serem divulgadas ao público.
Reacção do Governo
O Confidencial enviou um questionário detalhado ao Ministério do Ambiente, solicitando esclarecimentos sobre a metodologia utilizada nos relatórios e sobre os processos de adjudicação das concessões florestais. A resposta recebida limitou-se a afirmar que "todos os dados publicados seguem os mais rigorosos padrões científicos internacionais" e que os processos de concessão "foram conduzidos com total transparência e de acordo com a lei".
Organizações internacionais de monitorização florestal, quando confrontadas com os dados internos obtidos pelo Confidencial, confirmaram que os números publicados oficialmente são "inconsistentes com as medições por satélite" realizadas no mesmo período.
A investigação do Confidencial continua. Novas revelações serão publicadas nas próximas semanas.