Fui ao local à procura de um conflito de terra. Cheguei na garupa de uma mota, num dia em que combustível é quase um luxo e deslocar-se já implica escolha e risco. São esses os dias em que o jornalismo se faz com os pés — e com a consciência de que estar ali, naquele lugar, é um privilégio e uma responsabilidade.

A senhora que me recebeu falava devagar. Não era hesitação nem medo. Era o ritmo de quem escolhe as palavras com cuidado, de quem aprendeu que as palavras têm peso e que o peso das palavras pode fazer a diferença entre a terra ficar ou ser perdida.

A terra que não tem papel

Ela nunca teve um título de propriedade. A terra onde vive, onde a sua mãe viveu e onde a sua avó morreu, nunca foi registada em nenhum cartório. Era terra de uso e costume, reconhecida pela comunidade, respeitada pelos vizinhos durante décadas. Até que chegou uma empresa com papéis.

Os papéis diziam que aquela terra tinha sido cedida para um projecto de desenvolvimento agrícola. Os papéis tinham assinaturas de autoridades locais. Os papéis tinham datas. A senhora mostrou-me onde os seus antepassados estavam enterrados — a trinta metros da fronteira do projecto.

"Eles têm papel. Eu tenho os ossos dos meus avós. Qual dos dois tem mais direito?"

— Dona Maria, 67 anos, agricultora

O que o jornalismo deve fazer

Saí de lá com as notas, as fotos e um nó no estômago que nunca se desfaz completamente quando fazemos este tipo de jornalismo. Não é um nó de impotência — é um nó de responsabilidade. O nó de quem sabe que o que escrever pode ajudar ou, se escrito de forma errada, pode prejudicar.

A Dona Maria falava devagar, mas não esquecia nada. Lembrava as datas, os nomes dos funcionários, as promessas que foram feitas e não cumpridas. A sua memória era o arquivo que o Estado nunca construiu. E enquanto ela existir, a história existe. O nosso trabalho é garantir que continue a existir depois de ela já não poder contá-la.